Arquivado em: Cotidiano
Moro em um apartamento antigo onde as janelas do banheiro são grandes e envidraçadas. Gosto de tomar banho nele, de luz apagada: reorganizo minhas idéias diárias e posso deixar as janelas completamente abertas, o que permite contemplar toda a vizinhança e as ruas em volta sem ser notada.
Meu campo de visão da janela do banheiro é muito boa. É a mesma da sala e do quarto, um pouco mais para a diagonal. Tenho um horizonte inteiro, quase 180º sem obstruções. O quase — entenda — é um prédio moderno, com lofts reais, no esquema clássico vidro do piso ao teto, mezanino e cozinha americana. A maioria deles são totalmente obstruídos por persianas e cortinas corta-luz. Mas o do sexto andar, um andar abaixo da minha linha de fogo, não têm cortinas nem nada que o deixe com espaços reservados ou acobertados.
É de um homem solitário, de uns 25 a 30 anos.
E eu gosto de observar a rotina dele.
Ele chega em casa às 21h. Acende todas as luzes, inclusive as dicróicas em cima da bancada e os dois grandes abajures prostrados nas extremidades da estante da sala. Cumpre todos os dias o mesmo ritual. Joga no sofá de couro preto uma pasta bem moderna, onde carrega seu computador à tira-colo. Afrouxa a gravata, pega o controle remoto de um som hifi prateado, com caixas de som altas, coloca um jazz gostoso (para mim é jazz, já que não tenho como saber o que está tocando) e sobe a escada até o mezanino, imitando os instrumentos imaginários da música.
O prédio fica um pouco longe, coisa de 100 metros da minha janela. Por isso essa compilação relatada acima é resultado de pouco mais de 6 meses de observação a olho nu.
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Eu tenho um telescópio agora. E um dilema gigantesco nas minhas mãos. Invadir a vida dele ou apenas observar a existência-macro daquele loft, em um campo visual de amplo espectro?
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O mundo está mais voyeur hoje em dia. Virou moda com os reality-shows por aí. É uma forma de brincar de fazenda de formigas, de convívio social em uma só via.
Eu sou curiosa. E a curiosidade cria situações fantásticas, como sempre. E nunca vamos saber, ao certo, o que se passa ao nosso redor. Tenho medo do isolamento social, tenho necessidade de convivência coletiva. Mas um telecontato, só de observância é perigoso demais! É egoísmo, objeto.
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Enquanto isso observo. E só observo, com a água que salpica minha cabeça e escorre por meus olhos, como lágrimas do faz-de-conta. Dicotomias vivenciais estão sempre por aí, apenas para instigar. E tirar o sono como a curiosidade felina.
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