Arquivado em: Cotidiano
Passei inquieta o dia inteiro. A idéia de mirar minhas lentes pelas janelas alheias era muito intensa. O dia rodopiou em círculos intermináveis de minutos desaforados. Fui para e no pod uma trilha eletrotango.
Jantar.
Roupa confortável.
Luneta.
Uma olhada geral pelas janelas acesas.
Apaguei a luz, ajustei o som, puxei a banqueta de bar para um melhor ataque. A lente é clara e nítida. Consigo enquadrar apenas uma janela por vez, porque o alcance da teleobjetiva é grande. A sensação de ver a vida alheia silencia o mundo em volta.
Vejo pessoas em situações corriqueiras e desinteressantes. Um homem lê jornal. Nunca imaginei que alguém lesse jornais à noite. No quarto ao lado uma menina ensaia uma coreografia repetida na tv. Andares abaixo vejo alguém que dorme no sofá. Um homem lava a louça de cuecas. Uma mulher estica os cabelos insessantemente com uma chapinha.
O loft-alvo ainda está apagado.
Uma mulher corre do banheiro para o quarto. Sabe que o mundo é cheio de olheiros indiscretos. E se eu cruzar com alguém de binóculos? E se acenarem para mim? Saberei que sou vigiada. Será que já me viram passeando nua pela casa?
Um homem solitário, em um apartamento grande, escreve música enquanto dedilha algumas notas no piano de cauda que toma quase a sala inteira. Ele parece o Tom Jobim: tem cabelão desgranhado e óculos de aros velhos. Sorri quando acerta.
Tampo as lentes, encerro o momento com a esperança de postergar o meu alvo.
Bom para refletir. Ótimo para revoar pelas janelas alheias, outrora.
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