Le Lunet


Enquanto vigio você
Terça-feira, 28/10/08, 15:26
Arquivado em: Cotidiano

Pensei que seria fácil escrever aqui.

Não é.

Imaginei uma rotina diária de vivências, experimentos com pessoas que nem sonham que estão sendo seguidas por olhos distantes. Quase todos meus conceitos éticos e morais foram revisitados. Mudei meu jeito de olhar o mundo.

Comecei a observar o homem do loft do prédio distante. Invadi a vida dele sem permissão alguma. Chamo-o de George, em homenagem ao livro ‘1984′ de Orwell. Precisava de um nome, sei lá, talvez para minha ação parecer menos invasiva.

Observá-lo tornou-se uma forma de cumplicidade e sentimentos. Sim, é estranho falar desse modo, mas sei quando ele chega cansado ou preocupado com alguma coisa. Aprendi a interpretá-lo. Dias atrás ele entrou com uma multa de trânsito, dessas em que aparece a foto do carro. Ele abriu o envelope, viu a notificação e bufou, meio inconformado, em um giro engraçado de 360º. Multa é multa, e ninguém gosta de receber. Mas a reação dele foi muito expontânea e interessante!

Ontem ele desmontou um notebook. Não sei bem ao certo o que ele queria fazer, mas conseguiu espalhar as infinitas pequenas peças da máquina por toda a bancada da pia. Foi mais de 3 horas de confronto homem-máquina, até o momento crucial em que ele o conectou na tomada: a empolgação silenciosa, o gesto de vitória, com o punho fechado e a vibração em ver a pequena conquista foi estarrecedora. Como um homem como ele é tão só?

Observo o George há 4 semanas. Ele não recebe amigos, telefonemas, visitas, parentes. Sempre passa as noites em silêncio, escutando música enquanto lê ou então assiste dois ou três filmes antes de dormir no sofá.

Ele não parece feliz na maioria do tempo. Talvez more nesta cidade apenas porque achou um emprego legal. Não sei se ele gosta muito daqui. Raramente ele chega até a janela para contemplar a vista.

Sei que tudo isso é suposição. Mas é a minha forma de construir um mundo imaginoso e social, como uma cultura de formigas de aquário.

Pode parecer estranho, mas minha vida social melhorou muito depois que descobri este novo hobby. Ter um blog um tanto quanto “anônimo”, uma luneta espiã que nunca olhou para as estrelas e um vizinho que nomeei ao meu bel-prazer é muito excitante e produtivo.


1 Comentário até o momento
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Olha tb pensei que seria fácil escrever aqui, mas não é..
Adorei teu blog, irei visitá-la com mais frequência!
Abraços, Bruna

Comentário por O Último Romance




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