Le Lunet


A música essencial
Quinta-feira, 13/11/08, 15:47
Arquivado em: Cotidiano

Ele entrou em casa, correu para a parte de cima do apartamento, que está sempre com a cortina fechada e em menos de 10 minutos já estava circulando pela cozinha com os cabelos molhados de banho, trajando apenas uma cueca samba-canção e um moletom grande e desbotado, com as pontas das mangas e a gola toda puída. Aquele moletom deve ter no mínimo uns 15 anos de idade, porque é um Benetton antigo, com uma manga de cada cor, e a marca bem grande nas costas.

Com um sanduíche feito às pressas, arrancou do armário de tranqueiras um órgão eletrônico prateado, meio empoeirado. Instalou-o em cima da mesa de centro da sala, ligou toda a fiação no notebook e colocou um fone de ouvido grandão, tipo supra-auricular. Arrumou alguma coisa no computador, deu uma mordida no sanduíche e começou a tocar.

Interessante que tudo que ele dedilhava aparentemente aparecia em formato de partitura na tela do computador. Sei que isso não deve ser novidade pra muita gente, mas eu nunca tinha visto algo parecido. Ele estava sentado na beira do sofá, e o teclado estava longe. A posição era engraçada, parecia o Linus do Snoopy.

Fiquei muito curiosa com aquela situação. Faz quase 3 meses que o observo e nunca tinha visto esse lado músico dele.

Ele tocava com uma velocidade tremenda. Compunha de cabeça, hora ou outra parava, arrumava um punhado de notas no computador e recomeçava. 

A fase criativa toda durou quase uma hora. Salvou a partitura, guardou o teclado no armário e foi dormir. Bem cedo, com uma cara triste, coberto de um marasmo e mistério que eu jamais saberei.

E aquela música muda, rápida, instantânea e cheia de notas ondulantes não sai da minha cabeça.



A vizinha da história sem fim
Segunda-feira, 10/11/08, 16:21
Arquivado em: Cotidiano

Tem um casal vizinho meu (não sei se é do mesmo prédio ou do edifício logo atrás) que estão em uma crise de convívio ferrenha. 

Dias atrás passaram a noite inteira discutindo. Ela chamou o camarada de todos os palavrões, nomes-feios e adjetivos pejorativos de ordem diminuta que podia existir. Ele pedia apenas calma, coisa que não foi atendida em nenhum momento. 

Ah, a peleia começou no meio da madrugada. No final das contas, ele não aguentou a justa, juntou suas coisas e foi embora.

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Ontem me deparei com a mesma histérica, agora em revés sentimental: a mulher chorava copiosamente, e, entre balbúrdias e solúços, implorava para que o cafajestão de outrora voltasse para ela. 

Sem brincadeira, foram quase quatro horas de argumentação! Ele se comportou bem, aguentou quase a totalidade do tempo sem ceder. Ela apelou: jogou na cara a ladaínha da vida sem sentido, do sabor de fél na consciência, da falta de vontade para tudo, do nada, da desgraça que é a cama vazia, da vontade de se matar. 

Ai quando ela insistiu nessa de se matar o homem cedeu. Minutos depois caíram em prazeres carnais como se a lascividade entre aquelas duas pobres almas a carcomessem sem retaliações. 
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Acho que homem consegue colocar ponto-final em relacionamentos. Problema é que a mulherada, esperta que só elas, metem uma virgulazinha logo abaixo. Aí não tem santo que segure um ponto-e-vírgula mal resolvido.



CURIOSIDADES ACERCA D´ELE
Quinta-feira, 6/11/08, 10:37
Arquivado em: Cotidiano

O George compra livros pela internet. Lojas nacionais embaladas em caixinhas pardas; lojas importadas, em caixas mais rebuscadas de tintas e papelões brancos. Todas abertas à estilete, com o maior cuidado. Olha os livros rapidamente e assenta-os na grande estante de livros, em ordem alfabética. Alguns — pasme — seguem direto, sem a rapida passada de olhos.

Ele passa um bom tempo navegando por sites de compras. Tem um comunicador instantâneo e raramente conversa com alguém. Fica em uma espera longa. Às vezes abre o programa, vê que está online, mas não interage.

Sempre que está em casa o aparelho de som está ligado. O sistema deve ter recepção “wireless-alguma-coisa”, já que ele controla as músicas direto do player do computador.

Uma coisa que me chama a atenção é um porta-retratos que tem em cima da mesa de centro da sala: é uma foto de perfil americano, dele e uma mulher. Ele pega aquela foto a cada meia hora e contempla, estático, todos os detalhes. Vez por outra passa a ponta dos dedos pelo vidro, no rosto dela. Devolve com cuidado sempre no mesmo lugar e na mesma posição.

Noites vazias, tristes.

Suspiradas — em uníssino — ele e eu.