Le Lunet


A DÚVIDA E O REMORSO
Quarta-feira, 28/01/09, 14:38
Arquivado em: Cotidiano

Faz tempo que não escrevo aqui. Não sei mais distinguir o que é ético na minha vida secreta. Parei para repensar algumas coisas, decidi rapidamente dar cabo da situação.

Mas sou fraca, oras bolas!

Cansei de fugir. Minha vida é voyeur. Assumo publicamente que sou louca, espio a proibida vida acerca dos fatos reais de anônimos mundanos que se permitem, mesmo que inconscientes do que fazem, a minha longa observância.

Um circo de miniaturas de humanos, engaiolados em seus pequenos apartamentos em grandes construções. Rotineiros, cinzas, incólumes, sem-graça. A vida ao redor de todas as janelas que flutuam pelas lentes da minha luneta são mornas. Vomitáveis. Uma ou outra cena mais picante consegue avermelhar um pouco a visão. Mas a sua rápida instabilidade retorna à entropia corriqueira em um piscar de olhos.

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O apartamento do George não foge muito desta linha rotineira. Ele faz muitas coisas diferentes, mas repetidas, durante a semana. Dias atrás apareceu uma loira histérica na casa dele. Foi uma cena dantesca: ela tinha a chave do apartamento e entrou sem avisar.

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Virou um filme de ação-thriller: Ele estava com fones de ouvido, sentado de costas para a porta; ela cotuca ele no ombro; ele pega no braço dela em 3 movimentos rápidos de aikidô; ela cai no chão; ele vira-se rápido, com punhos em riste e em pose de ataque; ela grita como uma doida; ele enrubresce de imediato; ela tasca-lhe um sopapo de ida-e-volta na cara, com dedos semi-enrigecidos; ele posta-se em pose de não acreditar, com direito à mão na fronte.

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A cena foi deliciosa de ver. Praticamente uma tragicomédia da vida real encenada por dois doidivanas cheios de loucuras. Com certeza ela é uma ex-pegajosa. Dá para sentir de longe. E ela tinha a chave do apartamento dele. Ele roga, suplica, implora. Ela não cede. Ele gesticula os braços cruzados, como um juiz que pede a bola no final de partida. Acabou. Ela chora. Ele não acredita. Ela cai — literalmente — aos prantos no chão. Faz pose de diva com antebraço na testa e olhar no vazio, a 45º. Ela vai embora. Sai, mas não sem antes aplicar-lhe mais um tabéfe de palma cerrada e dedos abertos. Ele fecha a porta com toda a força.

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Romance mal resolvido. Dor de coração partido. Esperanças.

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Ele passou mais de duas horas brigando com um saco de boxe. Descontou o melodrama com socos e chutes. Aliás, nunca tinha visto aquele saco de treino. Ele desenterrou daquela porta cheia de tranqueiras, amarrou no pé do mezanino e começou a descarga.

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Fiquei com dó.


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To passando p/ avisar que tem selo lá no blog!
Beijos, Bruna

Comentário por O Último Romance




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