Le Lunet


Hi-Heel Sneack Peack Reverse.
Quinta-feira, 19/02/09, 18:02
Arquivado em: Cotidiano

Cheguei em casa tarde. Na sacola do mercado, um pote de sorvete americano, com nome dinamarquês, fabricado em Paris, congelado no Brasil e com sabor “Dulce de Leche” argentino. Liguei o som, deixei a luz do apartamento em penumbra noir de filme aveludado e comecei o fantástico ritual de banho demorado.

Velas aromáticas. Umas vinte, de cores, cheiros e tamanhos sortidos. Sal efervescente na banheira de louça antiga, chuveirada que parece chuva. Um espetáculo pessoal de quase uma hora.

O céu estava nublado em tons rubros,  com uma leve bruma embaçada e úmida. As janelas longíquas realçavam-se com a iluminação fria das fluorescentes que hora ou outra piscapiscavam. George estava parado em frente às grandes janelas de vidro do seu loft lá na frente.

Acho que nunca o vi comtemplar a vista do bairro. Ainda mais estático daquele jeito.

Terminei meu banho, sequei-me de forma rápida e arbitrária, vesti um hobby todo listrado, italiano, felpudo e atoalhado que ganhei há tempos e corri para a sala. Liguei a câmera que estava acoplada no telescópio (que por sua vez fazia mira para o loft dele) e esperei a imagem aparecer na tela. Lá estava ele, ainda estático.

E em suas mãos um binóculo!

Tive uma sensação muito estranha. Senti-me descoberta, perdi meu ponto de invencibilidade e invisibilidade. Olhei aflita para a tela e percebi que ele apenas zanzava por janelas aleatórias. E isso me tranquilizou. Conferi meu material de espionagem e vi que estava todo mimetizado com o ambiente, dificil de ser reconhecido. A minha TV fica em uma parede que faz ponto-cego para o ângulo de visão dele.

Aumentei a luz da sala. Passeei lentamente até a varanda, ainda de hobby. Senti-me impelida a provocá-lo. Era assombroso, como uma lebre que para em frente ao coiote faminto do vale desértico. Sentei-me em uma das cadeiras, posicionada estrategicamente em uma das laterais da varanda que dá visão tanto para ele quanto para a TV com a imagem telescópica. Cavoquei o pote de ”sorbet” com uma colher de prata antiga, grandona. E acompanhei os movimentos do voyeur com seu binóculo de lentes laranjas.

Era interessante a movimentação da sua vigia. Parecia que pulava de janela em janela e elas de nada eram interessantes. Ele começou a subir a alçada da visão e com toda certeza chegou na minha varanda. Senti isso, não sei como explicar. Resoli fazer um charminho, sempre espiando pela TV. Ele parou em mim, ganhei a noite com isso.

O problema é que eu sou meio espaventada e caí na besteira de olhar para fora. Ele percebeu minha passada de olhos pelo prédio dele e saiu correndo, como um menino flagrado em traquitanices. Apagou a luz do loft inteiro. Eu me apavorei. Pensei em sair da varanda correndo, gritar, implorar para que ele voltasse. Mas não consegui pensar em nada que desse cabo no meu desespero momentâneo. Continuei ali, estática, com o pote de sorvete suado, que hora ou outra pingava gotinhas geladas nas minhas pernas, e olhando impassível para a TV, que mostrava apenas uma penumbra de um apartamento fantasma.

A câmera que instalei no telescópio tem uma função de controle automático de luminosidade. Não sei se ela aumenta a sensibilidade, abertura, velocidadede exposição. Mas eu comecei a perceber na tela uma movimentação estranha no apartamento. Como um soldado sorrateiro, vi George se arrastando pelo chão do apartamento, com o binóculo em uma mão, até o canto atrás das grandes cortinas da janela.

Achei incrível! Ele levantou lentamente e com uma das mãos afastou a cortina para o lado. Colocou novamente o binóculo nos olhos e mirou imediatamente para cá. Continuei com a minha descontraída degustação, como quem não quer nada na vida naquele momento. Não tirava os olhos da TV. E ele não tirava os olhos da minha varanda acesa. Sentia-me leve e feliz como nunca. Sorria sozinha, acho que parecia uma louca para ele.

Essa experiência começou um pouco viciada, com um controle unilateral meu, onde eu tinha o poder de controlar meu observador, observando-o em detalhes que aquele binóculo de lentes laranjas não conseguiriam captar, e ao mesmo tempo agindo como se nada estivesse acontecido.

Leventei lentamente, mesmo porque o vento frio começou a me arrepiar. Fui até o quarto, vesti um pijama de cetim preto e de bolinhas brancas. Voltei para a sala, e percebi que ele tentava acompanhar com seu binóculo. Sequei meu cabelo, joguei a toalha para cima da mesa, dei um giro no tapete e me joguei no sofá.

Outro ponto cego dele!

Ele agachou-se, rastejou até a escada, subiu rapidamente e tentou, em vão, me observar.  Subiu em cima da cama, e nada.

Ganhei o dia.

Ele, desencantado com meu sofá grandão e de almofadas confortáveis e macias, acendeu a luz, jogou o binóculo em cima da cama e desceu para a cozinha.

Meu programa real, transmitido ao vivo e sem cortes, começava ali. E isto, com toda a certeza, ele sequer poderia imaginar.



In Your Own Sweet Way*
Quarta-feira, 18/02/09, 11:17
Arquivado em: Cotidiano

Espiar apartamentos em uma luneta é legal, mas a posição-de-corcunda-timido cansa muito. Resolvi montar um adaptador de câmera para a minha luneta, utilizando um conceito bem batido que tem na internet, chamado digiscoping. Comprei um adaptador de visor ocular, montei uma plaquinha de equilibrio e adaptei uma câmera de vídeo 1080 ultra compacta. Com essa parafernalha toda, consegui transmitir em broadcasting privado o que eu via com um olho apenas, em uma tela de 42″, com tecnologia FullHD de 1080 linhas.

A imagem ficou impressionante. A nitidez toda da lente, o poder de transmissão em baixa luminosidade e o conforto de um bom sofá não têm comparação! Ontem foi dia de me deliciar com um jazz. A trilha sonora, direto dos álbuns virtuais de uma rádio online deram um ar de nostalgia ao avanço notório da observância toda.

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É estranho pensar na maneira como achamos soluções malucas para finalidades não tão vitais. Agora tenho liberdade, qualidade, divertimento.

Mas, mesmo assim, somente no seu doce (e intangível) caminho, George.  

——

*In your own sweet way é uma música de David Brubeck, gravada por Miles Davis no disco Workin’ de 1956. Talvez essa versão só se equipare em riqueza dos eight-bar interludes com as trumpetadas de Chet Baker, Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Bud Powell.